quarta-feira, 30 de outubro de 2019

quase um haicai




















minha mãe passou a vida
carpindo nuvens
nos quintais da saudade

Temporais da memória













A casa da minha mãe
era como uma blusa vestida do avesso:
- do lado de dentro, solidão.
- do lado de fora, um jardim de preces.

A saudade era um resumo de fotografias 
guardadas no meio do seu enxoval. 

Um tio, fora sapateiro.
Outro, construtor de violinos.

Havia uma tia que era cega, 
mas bordava estrelas em panos de pratos. 

A casa da minha mãe resistiu às tempestades
de granizos. 


Só não resistiu aos temporais da memória. 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

A longa espera







A longa espera.

                           Para Maria Beatriz,  Tarsila, Camila, Homero e Heráclito

 Atrás da porta, o destino e seu caderno de perfídias,
dá cordas no relógio da vida.
Um pouco mais de tempo
para a agonia das horas?
Um pouco menos?

Um bouquêt de hortênsias murchas.
Um regente bêbado e sua cantora lírica.
Uma cadela e seus filhotes famintos.

Os sonhos azuis manchando as paredes do quarto.



50º. Festival Internacional de Inverno
Campos do Jordão – SP.
22 de Julho de 2019



Tabuleiro de Deus





O amor derramado nos tempos do cólera.

De que era feita a sua vontade?

Argila, cinzas, água, desespero:
subterfúgios submersos num veio escuro?
Os sonhos escapando pelos furos da peneira.

E Deus quieto, se fazendo de tonto.

Deus escondido entre as engrenagens do tempo,
trabalhando no engate das peças,
tentando dar sentido ao tabuleiro
que ele mesmo criou.

Deus, teu outro nome é ingratidão.
Destempero.
Julgamento final.


Marisa Sevilha Rodrigues 


sábado, 6 de julho de 2019

Mandala





















a chuva lá fora caindo macia
no colo da tarde
abrigada em seu xale de mandalas.

pé ante pé, flutuo entre as poças dágua

fecho os olhos
e sigo o instinto  das abelhas,
em sua firme decisão
de abandonar as colmeias.






Fogueira da discórdia

"Recolher o dia com suas miudezas,
 deixadas na travessia".

 Patricia Claudine Hoffmann







Soltar as mãos atadas do tempo.

Abrir a tarrafa e atirá-la aos peixes azuis e voadores;
símbolos atávicos da fartura,
mas também da morte por agonia.



acender mais uma fogueira,
com os gravetos secos da discórdia.

Cobrir as costas da noite, com seu xale de mandalas;
tomar o chá de maçã delgadas;
preparar o atestado de dúvidas e contestações;
não optar entre certezas ou dogmas;
engatinhar-se para o útero da mãe
e engalfinhar-se com os irmãos, antes de seus nascimentos.
Reter o brotar das sementes, numa vã tentativa
de aniquilar toda dor vertida no mundo;
Calar o estrondo dos vulcões, sem impedir a chuva de lavas
sobre a terra;

Renovar-se na mansidão da madrugada,
quando todos os barcos apontam para o nascente.





Marisa Sevilha Rodrigues






terça-feira, 18 de junho de 2019

O tridente do tempo




Imagem: Christian Schloé 
Botas de sete léguas 
carimbam estradas,
deixando o rastro
de suas solas nuas.

O olhar vesgo
revela o lado obscuro
da fotografia.


O tridente do tempo,
espeta sonhos,
verifica a procedencia dos desejos,
emperra as dobradiças
da memória. 

escolhe as mais tenras
como se fossem abóboras
de Halloween. 

As horas de joelhos dobrados
para os engenhos do diabo.

Brancas
são as açucenas
sobre a sua lápide.




segunda-feira, 3 de junho de 2019

Lembranças da Morte







A morte me espia
por debaixo da porta.
Vejo sua sombra negra
serpenteando
a espreita da presa.

De tempos em tempos,
a morte me visita
 no esconderijo de mim.
Me manda flores murchas,
e beijos ressequidos.
Me manda um cartão de visitas
e lembranças de teus braços fortes.

Quero ter esperança
de acordar criança, ao amanhecer:
mas ela me avisa que o tempo é curto
e que as cartas já foram marcadas
com o sinete do enforcado.

É tempo de preparar a última ceia,
para a festa de despedida. 

Ilustra: Micheline Mia Araújo

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Sala dos Esquecimentos







Ilustra: Digital Art 







Cabelos. Lágrimas. Incenso.

As têmporas saltando na testa.
Segredos debulhados na surdina das horas.

O rancor dando corda ao relógio das memórias.

Tudo que foi dito entredentes
 não chegou às portas
do coração.


Azul é a sala dos esquecimentos.



Os dentes da saudade







dentes afoitos
raspam o sabugo
da saudade.

Ilustra: Catrin Welz-Stein




sábado, 23 de março de 2019

Sala dos arrependimentos




Banho-me nas águas essenciais dos mares primevos.
No desenrolar das eras, ouço pactos dos senhores feudais,
emparedados em molduras do tempo,
engarrafados nas lâmpadas dos gênios.

coleciono aparelhos de medir a pressão sanguínea dos sonhos.
Olhares nas janelas quebradas das tardes, me observam,
invejosos.

Azul é a sala dos arrependimentos.

Na casa do abandono, percorro os cômodos da ilusão,
do egoísmo, da vilania e da insensatez,
mãe de todas as crueldades humanas:
eis que encontro o amor,
de cócoras no chão da cozinha,
auscultando o coração das formigas,
desterradas do açucareiro.

Ilustra: Elena Schlegel



Esqueleto de Sonhos

"teu corpo fugitivo para sempre,
o sangue de tuas veias em minha boca.
tua boca já sem luz para minha morte". 
Federico Garcia Lorca




O braço escuro da noite
me alcança pelos cabelos
e me faz descer as escadas escorregadias
do tempo:

- época de descascar cebolas
e chorar pela tua mesquinhez,
                enclausurada
no bule frio da amargura.

Mil vezes disse sim, querendo dizer não:
agora é tarde, para sempre tarde.

Teu corpo esboroando-se em minhas mãos.

Na cama pétrea,
repousam os esqueletos
dos nossos sonhos.

Ilustra: Elena Schlegel



sexta-feira, 22 de março de 2019

Cranberry & Vodka com Muito Gelo







Me debruço nas janelas quebradas dos seus olhos:
em vão, me busco no espelho de suas retinas.
Com o quê me pareço?
Lua grávida? Melancia? Unicórnio?
Fecho cortinas. Asperjo incensos.
Bato um mix de cranberry e vodca, com muito gelo.
Bebo tudo de um só gole.
Mas nada mais adianta.
teu desejo não viceja mais pelas bordas do copo.

O desfile de touros em Sevilha
foi adiado para o próximo milênio.


Imagem: Dino Valls

GESTOS DE AREIA





Para Sofia Widmer, Regina Valentim e Frederico Widmer

O charlamanismo das horas
à beira  do riacho, cujas pedras divertem
e curam os estultos. 
  
Águas sagradas  esculpem esferas do bem.
Resgatam sonhos atávicos.
Desembaraçam os cabelos da tarde, 
                deitada
às margens de uma segunda-feira, 
                  insana.

Quantos capítulos da história humana
serão necessários para que a paz
absoluta se instale no coração do homem?

A lua sangrenta do verão catapulta os sonhos para o próximo milênio.
Eternidade é bobagem para quem desfila na passarela da Via Láctea, 
incólume, dando de ombros para os nossos degredos. 

Em vão olharemos,  
esperançosos 
para as estrelas. 

Não há descanso embaixo do sol.
Nem respostas.

Só os gatos são capazes de traduzir nosso desespero, 
em gestos de areia.  

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Sorry, Baudelaire



























































Ilustra: Dino Vall

O dia se abre para a sinfonia das horas.
 No rosário das preces, os minutos são serpentes
que se arrastam no deserto dos corações.
Os mortos esperam os vivos em suas tumbas
caiadas de azul-calcário, em todos os dias de finados.
 É de bronze o sino que sopra as cinzas do domingo febril.
Um leque de outonos retém as agruras da carne.
É de sonho e de pó o cinzel que esculpe o corpo das eras.
O despertador não espera o último passageiro, na estação tardia.
As linhas da mão tangem os carneiros, de volta à casa do abandono.
Por quem os sinos dobram?                                      
Em que baú se escondem as quimeras?
Em vidros esverdeados, em miniatura, a poeta guardava oceanários
com cavalos marinhos e águas-vivas,
expostos em prateleiras destroncadas das paredes e suas janelas tortas.

O ferro em brasa de minha mãe bendizia todas as queimaduras.

O ansiolítico contém o antídoto da insônia, mas não preserva o insone
dos seus pesadelos.
Os sonhos enfermos se liquefazem em fraturas de nuvens.
Sob as patas do cavalo selvagem, o sono estremece.
Escrevo de cima da ponte, olhando o arco do Triunfo em dia de armistício.

Marisa Sevilha Rodrigues
Sorry, Baudelaire






Lassidão da Tarde


"Em verdade, em verdade, vos digo que, se o grão de trigo
                                               que cai na terra não morrer, fica infecundo.
                                                      Mas se morrer, produz muitos frutos".

                                                                                         São João, cap.XII, vers.24 e 25.


esticar o corpo na lassidão da tarde
e submergir no esquecimento;
desligar os neurônios, pouco a pouco, de tudo o que é dor
e ainda resiste, como memória.

entregar-se ao balanço das águas
e deixar-se ir, no embate com as falésias,
até o encontro com os estuários dos rios
e seus ossuários de peixes.

deixar-se ir, aos pouquinhos, em doses homeopáticas
e flertar com a morte, à espreita, sem temer a ponta escura
de seu cajado, cuja sombra já se avista nas paredes do quarto.

não resistir aos braços amputados do mar
e permitir-se estrangular nos abraços das marés.

com elas, ajoelhar-se nas praias do abandono,
em posição de sacrifício.

lamber o sal dos pés,
dos que já se foram,
e deixar as suas marcas,
para os que virão.


Marisa Sevilha Rodrigues
Oscar Freire, SP - 01/12/2017









domingo, 6 de janeiro de 2019

Cornucópia


Imagem: La tinta del Caracol
Artist: Catrin Welz-Stein

navego tua pele úmida de verões e consentimentos,
veleiro indeciso,
ancoro-me sob os teus seios.

Norteio-me pelo ciciar de borboletas
aninhadas no teu sexo.


Beijo pêssegos maduros,
sussurro palavras indecentes aos teus ouvidos,
descubro teu caderno secreto de desenhar raposas,
chapéus e elefantes.
Juntos, consertamos aviões, asas quebradas de pássaros
e observamos constelações.


Navegamos o céu, que é um mar de ponta-cabeça.

Contigo, compartilho meu sonho de pequeno príncipe:
sozinho, quero habitar inteiro o seu planeta,
livrá-lo dos baobás,
cultivar um jardim de rosas, nos alpendres do seu olhar;

e iluminá-lo com um pôr-do-sol,
único e para sempre, eterno.

Sto. Antonio do Pinhal, 6 de janeiro de 2019

Nésperas do Esquecimento


Imagem: Kukula
 Para Patricia Claudine Hoffmann, Cy Claudel, e minha mãe, Antonietta Romagnoli Rodrigues

À espera de algum milagre,
descasco as nêsperas no prato, descanso a faca
e me delicio com a polpa que ainda trás um aroma
de quando foi flor. 

No limiar da escada, tropeço em ossos alquebrados
dos que pararam no caminho.


Destranco portas e janelas, para respirar a noite.


Trago relíquias intangíveis no peito.

Um terço centenário que foi do meu pai,
ficou anos pendurado sobre a imagem do Sagrado Coração,
na parede do quarto,
até que alguém o surrupiou.

Levou a peça, mas não a lembrança.

Tem gente que acha que pode assaltar corações,
caixas de memórias, cofres de emoções.


Não pode. 

À sombra da árvore do esquecimento,
fiz um jardim de lembranças de todas as cores
para capinar todas as manhãs.

Me alimento com o perfume dos que me habitam,
em tempos de cólera, ou não. 

As janelas abertas para o pomar, agora que estou morta,
já não me assustam... 

MIUDEZAS DA TRAVESSIA

  Recolher o dia com suas miudezas da travessia: o que ficou na bateia e nem barro era; o brilhante falso que se esfarelou ao contato ...