domingo, 10 de fevereiro de 2019

Sorry, Baudelaire



























































Ilustra: Dino Vall

O dia se abre para a sinfonia das horas.
 No rosário das preces, os minutos são serpentes
que se arrastam no deserto dos corações.
Os mortos esperam os vivos em suas tumbas
caiadas de azul-calcário, em todos os dias de finados.
 É de bronze o sino que sopra as cinzas do domingo febril.
Um leque de outonos retém as agruras da carne.
É de sonho e de pó o cinzel que esculpe o corpo das eras.
O despertador não espera o último passageiro, na estação tardia.
As linhas da mão tangem os carneiros, de volta à casa do abandono.
Por quem os sinos dobram?                                      
Em que baú se escondem as quimeras?
Em vidros esverdeados, em miniatura, a poeta guardava oceanários
com cavalos marinhos e águas-vivas,
expostos em prateleiras destroncadas das paredes e suas janelas tortas.

O ferro em brasa de minha mãe bendizia todas as queimaduras.

O ansiolítico contém o antídoto da insônia, mas não preserva o insone
dos seus pesadelos.
Os sonhos enfermos se liquefazem em fraturas de nuvens.
Sob as patas do cavalo selvagem, o sono estremece.
Escrevo de cima da ponte, olhando o arco do Triunfo em dia de armistício.

Marisa Sevilha Rodrigues
Sorry, Baudelaire






Lassidão da Tarde


"Em verdade, em verdade, vos digo que, se o grão de trigo
                                               que cai na terra não morrer, fica infecundo.
                                                      Mas se morrer, produz muitos frutos".

                                                                                         São João, cap.XII, vers.24 e 25.


esticar o corpo na lassidão da tarde
e submergir no esquecimento;
desligar os neurônios, pouco a pouco, de tudo o que é dor
e ainda resiste, como memória.

entregar-se ao balanço das águas
e deixar-se ir, no embate com as falésias,
até o encontro com os estuários dos rios
e seus ossuários de peixes.

deixar-se ir, aos pouquinhos, em doses homeopáticas
e flertar com a morte, à espreita, sem temer a ponta escura
de seu cajado, cuja sombra já se avista nas paredes do quarto.

não resistir aos braços amputados do mar
e permitir-se estrangular nos abraços das marés.

com elas, ajoelhar-se nas praias do abandono,
em posição de sacrifício.

lamber o sal dos pés,
dos que já se foram,
e deixar as suas marcas,
para os que virão.


Marisa Sevilha Rodrigues
Oscar Freire, SP - 01/12/2017









MIUDEZAS DA TRAVESSIA

  Recolher o dia com suas miudezas da travessia: o que ficou na bateia e nem barro era; o brilhante falso que se esfarelou ao contato ...