Nasce mais um livroblog meu, cujo título já estava fervilhando na minha cabeça há uns tres anos. Depois de muito procrastinar,resolvi tirá-lo do mundo "das idéias",como dizia Platão, ou mundo do demiurgo, e trazê-lo para o mundo real, ainda que virtual. Trata-se de uma seleção de 80 poemas surrealistas, com um toque de ironia, sarcasmo e provocação. Espero que você, querido leitor, aprecie-o sem moderação.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2021
A desdita da cova fria
sábado, 23 de outubro de 2021
Terra Deusa
Aos quarenta teve a
vida devastada por um tornado
arrancou os cabelos, bebeu, xingou
e brigou até com o diabo;
exímia dançarina na corda bamba da vida
equilibrou-se nas linhas finas do rosto
e nas redondas panturrilhas;
esgotadas as lágrimas, ergueu-se do fundo do poço,
banhou-se nas águas lunares de suas memórias,
vestiu lingerie vermelha e armou-se de capa e espada;
não entregou os pontos,
arregaçou as mangas e foi à luta, guerreira de si mesma
até as portas do inferno;
comeu o pão que o capeta amassou com os chifres:
curou-se de um câncer maldito no ventre
decepou as mamas, venceu os pesadelos noturnos
e os vendavais herdados de seus ancestrais;
não cometeu nenhum crime, mas foi provada à exaustão
pelos escritores torpes do seu destino:
_ nasceu mulher para parir homens e povoar a terra.
Sacerdotisa do fogo sagrado,
mantém-se acesa no coração feminino,
Terra Deusa, deixa-se fertilizar pelo pólen das abelhas
e produz mel entre as pernas
para alimentar os seres de boa vontade.
sábado, 9 de janeiro de 2021
Vastidão da Noite
![]() |
| Pachamama, considerada mãe da terra, em algumas culturas da América Latina |
(Para Regina Valentim, musa inspiradora deste poema e4 de tantos outros, quando nos encontramos em Camburi - SP)
costuram estrelas nas abas do chapéu.
(Rios vestidos de luares percorrem teu corpo,
a esmo.)
A sofreguidão dos dias, arrancados a quatro mãos
dos calendários, não detém a pandemia.
As horas tristes, de joelhos, aguardam o tiro
de uma provável roleta russa.
Mãos que desenharam pergaminhos,
agora decidem entre a vida e a morte,
os velhos e os jovens,
o respiradouro e a falta dele.
Alheia a tudo que acontece ao seu redor,
Pachamama banha-se no seu jardim secreto,
faz uma sopa de grão de bico,
toca um Noturno de Choppin.
Cobre as costas nuas, com um xale antigo,
recortado na paisagem fria.
Estátuas murmuram segredos sob as pedras do outono.
No dia seguinte, tudo é ontem, outra vez:
_ lavar, passar, cozinhar, escrever, fazer pão,
cuidar do cão;
tudo é tarefa escrava e ancestral.
Acostumados à guerra fria, os homens escondem-se atrás das portas,
embaixo das mesas, nas dobradiças das janelas.
Homens não foram feitos para a roda feminina da vida.
Emperram no primeiro giro da engrenagem.
Discutem. Divagam. Conspiram.
Perdem o foco. Competem.
Matam-se uns aos
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