quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A desdita da cova fria


voltar ao pó da terra,
ao casulo da semente,
ao esconderijo mais recôndito
do escafandro.
eis o meu desejo, agora que não sou mais filha nem irmã;
nem encontro regozijo numa palavra tersã;
com a delicadeza das alamandas
teço um véu amarelo; enfeito-o com a grinalda transparente das manhãs.
Espero em vão o pássaro de asas azuis que sobrevoa os meus sonhos;
não há desdita pior que a cova fria;
o rosto ausente dos amigos;
o riso franco das horas em preto-e-branco;

o sol imenso e brilhante abrange a Serra da Mantiqueira, e além
o sino de vento, às vezes, pendurado na minha varanda,
com sua voz rouca, canta uma canção tristonha;
os carneiros balem ao longe, adivinhando a Páscoa e seus destinos torpes;
não há mais ninguém nas janelas;
todos estão reclusos em suas casinhas amarelas.
até que a peste os arraste pelos cabelos ao alto dos montes;
até que a morte do Cordeiro não seja mais em vão.
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Escrevi este poema usando escrita automática, ao modo dos surrealistas. Curso do Cláudio Claudio Willer me influenciando.
Sto. Antonio do Pinhal.
25 de março de 2021.
10h44

sábado, 23 de outubro de 2021

Terra Deusa

 

Ilustra: Earth Goddess - Mitologia Helênica 

Aos quarenta  teve a vida devastada por um tornado

arrancou os cabelos, bebeu, xingou 

e brigou até com o diabo;

exímia dançarina na corda bamba da vida

equilibrou-se nas linhas finas do rosto

e nas redondas panturrilhas;

esgotadas as lágrimas, ergueu-se do fundo do poço,

banhou-se nas águas lunares de suas memórias,

vestiu lingerie vermelha e armou-se de capa e espada;

não entregou os pontos,

arregaçou as mangas e foi à luta, guerreira de si mesma

até as portas do inferno;

comeu o pão que o capeta amassou com os chifres:

curou-se de um câncer maldito no ventre

decepou as mamas, venceu os pesadelos noturnos

 e os vendavais herdados de seus ancestrais;

não cometeu nenhum crime, mas foi provada à exaustão

pelos escritores torpes do seu destino:

_ nasceu mulher para  parir homens e povoar a terra.

 

Sacerdotisa do fogo sagrado,

mantém-se acesa no coração feminino,

Terra Deusa, deixa-se fertilizar pelo pólen das abelhas

e produz mel entre as pernas

para alimentar os seres  de boa vontade.

 

sábado, 9 de janeiro de 2021

Vastidão da Noite

 

Pachamama, considerada mãe da terra,
em algumas culturas da América Latina 


(Para Regina Valentim, musa inspiradora deste poema e4 de tantos outros, quando nos encontramos em Camburi - SP)




estátuas murmuram na vastidão da noite,

costuram estrelas nas abas do chapéu.

 

(Rios vestidos de luares percorrem teu corpo,

a esmo.)

 

A sofreguidão dos dias, arrancados a quatro mãos

dos calendários, não detém a pandemia.

As horas tristes, de joelhos, aguardam o tiro

de uma provável roleta russa.

 

 Mãos que desenharam pergaminhos,

agora decidem entre a vida e a morte,

os velhos e os jovens,

o respiradouro e a falta dele.

 

Alheia a tudo que acontece ao seu redor,

Pachamama banha-se no seu jardim secreto,

faz uma sopa de grão de bico,  

toca um Noturno de Choppin.  

Cobre as costas nuas, com um xale antigo,

recortado na paisagem fria.

 

Estátuas murmuram segredos sob as pedras do outono.

 

No dia seguinte, tudo é ontem, outra vez:

_ lavar, passar, cozinhar, escrever, fazer pão,

cuidar do cão;

 tudo é tarefa escrava e ancestral.

Acostumados à guerra fria, os homens escondem-se atrás das portas,

 embaixo das mesas, nas dobradiças das janelas. 

Homens não foram feitos para a roda feminina da vida. 

Emperram no primeiro giro da engrenagem. 

Discutem. Divagam. Conspiram.

Perdem o foco. Competem. 

Matam-se uns aos


outros e nem se importam.

 


MIUDEZAS DA TRAVESSIA

  Recolher o dia com suas miudezas da travessia: o que ficou na bateia e nem barro era; o brilhante falso que se esfarelou ao contato ...