quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A desdita da cova fria


voltar ao pó da terra,
ao casulo da semente,
ao esconderijo mais recôndito
do escafandro.
eis o meu desejo, agora que não sou mais filha nem irmã;
nem encontro regozijo numa palavra tersã;
com a delicadeza das alamandas
teço um véu amarelo; enfeito-o com a grinalda transparente das manhãs.
Espero em vão o pássaro de asas azuis que sobrevoa os meus sonhos;
não há desdita pior que a cova fria;
o rosto ausente dos amigos;
o riso franco das horas em preto-e-branco;

o sol imenso e brilhante abrange a Serra da Mantiqueira, e além
o sino de vento, às vezes, pendurado na minha varanda,
com sua voz rouca, canta uma canção tristonha;
os carneiros balem ao longe, adivinhando a Páscoa e seus destinos torpes;
não há mais ninguém nas janelas;
todos estão reclusos em suas casinhas amarelas.
até que a peste os arraste pelos cabelos ao alto dos montes;
até que a morte do Cordeiro não seja mais em vão.
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Escrevi este poema usando escrita automática, ao modo dos surrealistas. Curso do Cláudio Claudio Willer me influenciando.
Sto. Antonio do Pinhal.
25 de março de 2021.
10h44

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