domingo, 10 de fevereiro de 2019

Lassidão da Tarde


"Em verdade, em verdade, vos digo que, se o grão de trigo
                                               que cai na terra não morrer, fica infecundo.
                                                      Mas se morrer, produz muitos frutos".

                                                                                         São João, cap.XII, vers.24 e 25.


esticar o corpo na lassidão da tarde
e submergir no esquecimento;
desligar os neurônios, pouco a pouco, de tudo o que é dor
e ainda resiste, como memória.

entregar-se ao balanço das águas
e deixar-se ir, no embate com as falésias,
até o encontro com os estuários dos rios
e seus ossuários de peixes.

deixar-se ir, aos pouquinhos, em doses homeopáticas
e flertar com a morte, à espreita, sem temer a ponta escura
de seu cajado, cuja sombra já se avista nas paredes do quarto.

não resistir aos braços amputados do mar
e permitir-se estrangular nos abraços das marés.

com elas, ajoelhar-se nas praias do abandono,
em posição de sacrifício.

lamber o sal dos pés,
dos que já se foram,
e deixar as suas marcas,
para os que virão.


Marisa Sevilha Rodrigues
Oscar Freire, SP - 01/12/2017









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