sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

MIUDEZAS DA TRAVESSIA

 

Recolher o dia com suas miudezas da travessia:

o que ficou na bateia e nem barro era;

o brilhante falso que se esfarelou

ao contato dos dedos trôpegos.

 

Amassar o pão de todos os dias,

com o fermento crescido, às escuras,

no fundo do armário, longe da alma cristã das tias.

 

Recolher as tarrafas do dia:

pendurar a rede, resgatar o peixe,

dourar a lágrima do peixe, confiscar as pérolas.

 

Com braços atávicos de pescadores,

abrir as cortinas do dia.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

garimpo do dia

 


recolher as miudezas da travessia:

o que ficou na bateia e nem barro era;

o brilhante falso que se esfarelou

ao contato dos dedos trôpegos.

 

amassar o pão com o fermento crescido

:às escuras,

no fundo do armário, 

longe da alma cristã 

:das tias

 

esticar  as tarrafas do dia:

pendurar a rede, destrinchar o peixe,

dourar as lágrimas do peixe, 

confiscar suas pérolas.

 

com braços atávicos 

de pescadores,


fechar as cortinas do dia

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Signo de Peixes

 




Signo de peixes

andava
e seus pés estampavam peixes
no chão
seu corpo era fluído, malemolente
ao ritmo de suas saias,
desenhava caminhos líquidos ,
escrevia versos eloquentes,
estendia uma colcha de pássaros sobre a cama
e tricotava um cachecol com borboletas
flutuava sobre as àguas.
viraria vento
pó, jamais

Um Poema Para Manu

 



Um Poema Para Manu 

 

Para Manoela Lima Lira Correa, nossa “Manuzinha”, in memoriam

 

Tudo é paisagem estéril até onde a vista alcança.

Montanhas cobertas com seus mantos de névoas

anunciam que não mais  haverá futuras manhãs.

A terra procura suas raízes sagradas, junto aos juncos

e suas flores inconspícuas.

 

O tempo caminha com suas vestes dobradas, numa das mãos.

E na outra, um cajado manco.

 

O tempo não mais tem pressa.

Da janela, adivinho sua lentidão.

E entendo porquê o dia não passa.

Se arrasta.

 

Agora, tudo é silêncio na casa da alegria.

 

O relógio marca a sobra das horas.

E seu constrangimento.

Não mais vozes de crianças na sala.

Só a dor do membro fantasma

teima em sua existência cruel.

 

Lágrimas encontram-se com o eco dos meus soluços.

Mas são inúteis, pois o anjo da primavera partiu,

: enrolado

em um xale de hibiscos roxos.

 

Sobre o telhado da casa,

dorme um gato,

em sua perenidade de estátua.

 

 

Morumbi, 02 de outubro de 2023, dia consagrado ao Anjo da Guarda.

 

domingo, 21 de maio de 2023

Caravana de camelos & o furo da agulha





do parto prematuro nasceram estrelas cadentes.

 

:para entreter o coração dos homens,

 os deuses criaram a vastidão das galáxias.

 

como não tinham outros afazeres,

 decidiram brincar com a sorte

dos humanos:

desenhar mortalhas; planejar funerais; desenterrar vulcões submersos;

agendar furacões;

Tudo planejado com antecedência milenar

entre o furo da agulha

 e a caravana de camelos.


Pássaros camuflados

     





São de anjos os pés que pisam pétalas,

espalhadas sobre os espelhos dágua.

Da leveza de seus passos, voam pássaros

camuflados de amanhecer

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A desdita da cova fria


voltar ao pó da terra,
ao casulo da semente,
ao esconderijo mais recôndito
do escafandro.
eis o meu desejo, agora que não sou mais filha nem irmã;
nem encontro regozijo numa palavra tersã;
com a delicadeza das alamandas
teço um véu amarelo; enfeito-o com a grinalda transparente das manhãs.
Espero em vão o pássaro de asas azuis que sobrevoa os meus sonhos;
não há desdita pior que a cova fria;
o rosto ausente dos amigos;
o riso franco das horas em preto-e-branco;

o sol imenso e brilhante abrange a Serra da Mantiqueira, e além
o sino de vento, às vezes, pendurado na minha varanda,
com sua voz rouca, canta uma canção tristonha;
os carneiros balem ao longe, adivinhando a Páscoa e seus destinos torpes;
não há mais ninguém nas janelas;
todos estão reclusos em suas casinhas amarelas.
até que a peste os arraste pelos cabelos ao alto dos montes;
até que a morte do Cordeiro não seja mais em vão.
____________________________________________________________________
Escrevi este poema usando escrita automática, ao modo dos surrealistas. Curso do Cláudio Claudio Willer me influenciando.
Sto. Antonio do Pinhal.
25 de março de 2021.
10h44

sábado, 23 de outubro de 2021

Terra Deusa

 

Ilustra: Earth Goddess - Mitologia Helênica 

Aos quarenta  teve a vida devastada por um tornado

arrancou os cabelos, bebeu, xingou 

e brigou até com o diabo;

exímia dançarina na corda bamba da vida

equilibrou-se nas linhas finas do rosto

e nas redondas panturrilhas;

esgotadas as lágrimas, ergueu-se do fundo do poço,

banhou-se nas águas lunares de suas memórias,

vestiu lingerie vermelha e armou-se de capa e espada;

não entregou os pontos,

arregaçou as mangas e foi à luta, guerreira de si mesma

até as portas do inferno;

comeu o pão que o capeta amassou com os chifres:

curou-se de um câncer maldito no ventre

decepou as mamas, venceu os pesadelos noturnos

 e os vendavais herdados de seus ancestrais;

não cometeu nenhum crime, mas foi provada à exaustão

pelos escritores torpes do seu destino:

_ nasceu mulher para  parir homens e povoar a terra.

 

Sacerdotisa do fogo sagrado,

mantém-se acesa no coração feminino,

Terra Deusa, deixa-se fertilizar pelo pólen das abelhas

e produz mel entre as pernas

para alimentar os seres  de boa vontade.

 

sábado, 9 de janeiro de 2021

Vastidão da Noite

 

Pachamama, considerada mãe da terra,
em algumas culturas da América Latina 


(Para Regina Valentim, musa inspiradora deste poema e4 de tantos outros, quando nos encontramos em Camburi - SP)




estátuas murmuram na vastidão da noite,

costuram estrelas nas abas do chapéu.

 

(Rios vestidos de luares percorrem teu corpo,

a esmo.)

 

A sofreguidão dos dias, arrancados a quatro mãos

dos calendários, não detém a pandemia.

As horas tristes, de joelhos, aguardam o tiro

de uma provável roleta russa.

 

 Mãos que desenharam pergaminhos,

agora decidem entre a vida e a morte,

os velhos e os jovens,

o respiradouro e a falta dele.

 

Alheia a tudo que acontece ao seu redor,

Pachamama banha-se no seu jardim secreto,

faz uma sopa de grão de bico,  

toca um Noturno de Choppin.  

Cobre as costas nuas, com um xale antigo,

recortado na paisagem fria.

 

Estátuas murmuram segredos sob as pedras do outono.

 

No dia seguinte, tudo é ontem, outra vez:

_ lavar, passar, cozinhar, escrever, fazer pão,

cuidar do cão;

 tudo é tarefa escrava e ancestral.

Acostumados à guerra fria, os homens escondem-se atrás das portas,

 embaixo das mesas, nas dobradiças das janelas. 

Homens não foram feitos para a roda feminina da vida. 

Emperram no primeiro giro da engrenagem. 

Discutem. Divagam. Conspiram.

Perdem o foco. Competem. 

Matam-se uns aos


outros e nem se importam.

 


sábado, 4 de janeiro de 2020

METAMORPHOSIS











Ilustra: Nicoleta Cecolli 




                             Para Jorge Matsuda, in memoriam

Cruzei pântanos e desertos, neste ano inglório
só para chegar ao outro lado do espelho,
e descobrir que os lagos também choram.
À borda de suas lágrimas, encontrei-me
com os seis personagens de Pirandello,
abandonados por seu autor.

Deus lá em cima, se diverte conosco, suas marionetes:


O anjo, o diabo, a morte e a esperança estampam as cartas
do Tarot, mas mantêm os olhos cerrados, as mãos fechadas
e o coração escondido.

As estações do ano.
 O signo de Peixes.
A lua ensimesmada em suas dúvidas.
As quimeras.
Os campos semeados de Nosso Senhor.
A cantora lírica com uma flor de maracujá nos cabelos.
O pé de jaca e sua sombra traiçoeira.
Os frutos da paixão pousados na cesta do ontem.
O presente sem pão.
O par de sapatos, silentes, esquecido atrás da porta.

Agora, não preciso mais de pernas, mas ainda não criei asas.

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Mosteiros de Itaici, Indaiatuba, São Paulo
Casa dos poetas Edson Freire, Maria Beatriz Freire e Zuza Freire
01 de janeiro de 2020.


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

MIUDEZAS DA TRAVESSIA

  Recolher o dia com suas miudezas da travessia: o que ficou na bateia e nem barro era; o brilhante falso que se esfarelou ao contato ...