sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Concerto para flautas de Bach

Imagem: Catrin Welz-Stein



 Para minha mãe Antonietta Romagnoli Rodrigues, um ano após sua morte.

um resto de mar cresce nas barras das minhas saias,
um véu caudaloso de peixes e estrelas 

içam de mim, o meu barco interior.
sem ilhas ou praias do abandono, sou um corpo à deriva:
de um lado, mágoas; de outro, constelações.
submarino-me para entender dos desertos e suas ampulhetas quebradas.

Areias movediças. Peixes lânguidos.

Sereias mordiscando suas caudas ao sol do meio dia.
Tudo é miragem e se esboroa à flor do pranto.
Levanto a proa e puxo âncoras, numa vã tentativa de arrastar junto,
os braços velejadores de quem não vejo.
Quem sabe desviar da rota um marujo torto, 

vestido de solfejos.

De que argamassa somos feitos?


Minúsculas estátuas de sal nascem no meu jardim de inverno.
E, na primavera, esperam um transplante de vasos, 
para crescerem: mulheres de Lot.
Semeio esperanças. Replanto ânforas.
Assopro flautas de Bach e construo cascatas orgânicas.
Trago joelhos dobrados à beira do arrependimento.
Disfarço minha falta de fé com uma moringa d`agua
e um compêndio de discernimentos.

 Na varanda dos meus seios, choro e rezo.
Pelos vales sagrados ao sul do meu púbis, planejo viagens solitárias
que nunca empreendo.
Das promessas me livro e guardo, pois o que não salva,
cedo ou tarde, sempre falha.
Na garganta de plantas carnívoras, escondo meus segredos.
Nego. Escamoteio. Renego.
De manhã, tomo café amargo e esmago formigas ciganas, 

recém-chegadas ao açucareiro.
Saio para o quintal e hasteio a echarpe do que um dia foi memória
e hoje repousa no fundo do jarro:


_ flores brancas do esquecimento.




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MIUDEZAS DA TRAVESSIA

  Recolher o dia com suas miudezas da travessia: o que ficou na bateia e nem barro era; o brilhante falso que se esfarelou ao contato ...