sexta-feira, 1 de abril de 2016

A besta do apocalypse






"Pontes não  traem as mãos que as mantém firmes. Os homens que as traem". 
.
Quarup, de Antonio Callado


a besta do apocalypse  escamoteia-se entre as frestas dos palácios:
infiltra-se na carne das crianças abandonadas,
nas rodas dos enjeitados.
bota fogo nas flores brancas do algodoeiro,
inverte o curso dos rios,
aprisiona-os em suas nascentes,
matando os peixes e seus descendentes:

_ pescadores agora vivem em casas submersas,
que resistem, apenas em suas memórias;

a besta não tem hora para refestelar-se no pasto
dos nossos sonhos:
constrói um ossuário à sua volta,
palita os dentes com nossos carpos e metacarpos,
e arrota o resto de nossos pratos.
distribui um corolário de palavrões, 
e até à vaca sagrada e seu leite, são amaldiçoados a mãos cheias. 

a besta se alimenta de carne vermelha e cachaça da boa,
e cospe fogo na cara dos seus camareiros,
queima-lhes a barba hirsuta e as futuras gerações, 
castra-as,  envenena-as e  bebe-lhes o sangue.

Fecha os cartórios de madrugada para registrar as propriedades alheias;
a besta-fera não tem escrúpulos, nem limites;
esgueira-se entre os vãos escuros e as sombras da noite,
rapta as mulheres casadas e estupra as jovens puras;
dos bebês nascidos em terras àridas, sorve os cérebros em canudinhos;
das frutas, ela mastiga as sementes para que nem ervas-daninhas nasçam mais,
embaixo do carvalho, onde ela se senta;
e de onde, sarcástica, tudo contempla.

todas as noites, antes de dormir, assim como quem é inocente,
a besta  pega uma tesoura e brinca de cortar as sílabas
da palavra esperança, colandos-as  no seu caderno
                          _infantil e cruel_
embaralhadas
e de trás para a frente. 


Ilustra: Crristian Schloe 

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