Nasce mais um livroblog meu, cujo título já estava fervilhando na minha cabeça há uns tres anos. Depois de muito procrastinar,resolvi tirá-lo do mundo "das idéias",como dizia Platão, ou mundo do demiurgo, e trazê-lo para o mundo real, ainda que virtual. Trata-se de uma seleção de 80 poemas surrealistas, com um toque de ironia, sarcasmo e provocação. Espero que você, querido leitor, aprecie-o sem moderação.
sábado, 23 de março de 2019
Sala dos arrependimentos
Banho-me nas águas essenciais dos mares primevos.
No desenrolar das eras, ouço pactos dos senhores feudais,
emparedados em molduras do tempo,
engarrafados nas lâmpadas dos gênios.
coleciono aparelhos de medir a pressão sanguínea dos sonhos.
Olhares nas janelas quebradas das tardes, me observam,
invejosos.
Azul é a sala dos arrependimentos.
Na casa do abandono, percorro os cômodos da ilusão,
do egoísmo, da vilania e da insensatez,
mãe de todas as crueldades humanas:
eis que encontro o amor,
de cócoras no chão da cozinha,
auscultando o coração das formigas,
desterradas do açucareiro.
Ilustra: Elena Schlegel
Esqueleto de Sonhos
"teu corpo fugitivo para sempre,o sangue de tuas veias em minha boca.tua boca já sem luz para minha morte".
Federico Garcia Lorca
O braço escuro da noite
me alcança pelos cabelos
e me faz descer as escadas escorregadias
do tempo:
- época de descascar cebolas
e chorar pela tua mesquinhez,
enclausurada
no bule frio da amargura.
Mil vezes disse sim, querendo dizer não:
agora é tarde, para sempre tarde.
Teu corpo esboroando-se em minhas mãos.
Na cama pétrea,
repousam os esqueletos
dos nossos sonhos.
Ilustra: Elena Schlegel
sexta-feira, 22 de março de 2019
Cranberry & Vodka com Muito Gelo
Me debruço nas janelas quebradas dos seus olhos:
em vão, me busco no espelho de suas retinas.
Com o quê me pareço?
Lua grávida? Melancia? Unicórnio?
Fecho cortinas. Asperjo incensos.
Bato um mix de cranberry e vodca, com muito gelo.
Bebo tudo de um só gole.
Mas nada mais adianta.
teu desejo não viceja mais pelas bordas do copo.
O desfile de touros em Sevilha
foi adiado para o próximo milênio.
Imagem: Dino Valls
GESTOS DE AREIA
Para Sofia Widmer, Regina Valentim e Frederico Widmer
O charlamanismo das horas
à beira do riacho, cujas pedras divertem
e curam os estultos.
Águas sagradas esculpem esferas do bem.
Resgatam sonhos atávicos.
Desembaraçam os cabelos da tarde,
deitada
às margens de uma segunda-feira,
insana.
Quantos capítulos da história humana
serão necessários para que a paz
absoluta se instale no coração do homem?
A lua sangrenta do verão catapulta os sonhos para o próximo milênio.
Eternidade é bobagem para quem desfila na passarela da Via Láctea,
incólume, dando de ombros para os nossos degredos.
Em vão olharemos,
esperançosos
para as estrelas.
Não há descanso embaixo do sol.
Nem respostas.
Só os gatos são capazes de traduzir nosso desespero,
em gestos de areia.
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