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| Ilustra: Dino Vall |
O dia se abre para a sinfonia das
horas.
No rosário das preces,
os minutos são serpentes
que se arrastam no deserto dos corações.
Os mortos esperam os vivos em suas tumbas
caiadas de azul-calcário, em todos os dias de finados.
É de bronze o sino que
sopra as cinzas do domingo febril.
Um leque de outonos retém as agruras da carne.
É de sonho e de pó o cinzel que esculpe o corpo das eras.
O despertador não espera o último passageiro, na estação
tardia.
As linhas da mão tangem os carneiros, de volta à casa do
abandono.
Por quem os sinos dobram?
Em que baú se escondem as quimeras?
Em vidros esverdeados, em miniatura, a poeta guardava
oceanários
com cavalos marinhos e águas-vivas,
expostos em prateleiras destroncadas das paredes e suas
janelas tortas.
O ferro em brasa de minha mãe bendizia todas as queimaduras.
O ansiolítico contém o antídoto da insônia, mas não preserva
o insone
dos seus pesadelos.
Os sonhos enfermos se liquefazem em fraturas de nuvens.
Sob as patas do cavalo selvagem, o sono estremece.
Escrevo de cima da ponte, olhando o arco do Triunfo em dia
de armistício.
Marisa Sevilha Rodrigues
Sorry, Baudelaire

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